A teoria sócio-interaccionista, que teve em Vygotsky o seu maior expoente, defende a concepção do homem enquanto corpo e mente, enquanto ser biológico e social, enquanto participante de um processo histórico cultural. Defende, pois, a contínua interacção entre as condições sociais mutáveis e os factores biológicos do comportamento.
Esta nova abordagem privilegia o ambiente social e preconiza que o desenvolvimento varia consoante o ambiente, não aceitando, pois, uma visão única e universal do desenvolvimento humano.
A relação homem-mundo é mediada por símbolos e o desenvolvimento e a aprendizagem são processos que se influenciam reciprocamente.
A linguagem tem um papel fulcral no desenvolvimento cognitivo, pois com a aquisição da mesma se modificam os processos mentais. A linguagem é, pois, factor de inserção social.
O uso dos signos, enquanto instrumentos das actividades psicológicas, transformam as funções mentais elementares - acções reflexas; reacções automatizadas - em processos mentais superiores - acções conscientemente controladas; atenção voluntária; memorização activa; pensamento abstracto; comportamento intencional e capacidade para solução de problemas.
Os instrumentos de representação e a linguagem determinam a mediação entre o individuo e o mundo.
A cultura determina a forma como o indivíduo percebe e organiza o real. Vigotsky defende que o desenvolvimento cultural da criança é condicionado pelas construções sociais e culturais a que a mesma está sujeita e pela sua interiorização, que é concretizada a partir de interacções que se estabelecem com os adultos, numa clara assunção de que o individuo reconstrói e reelabora os significados transmitidos pelo seu grupo cultural.
É a partir deste pressupostos que o autor desenvolve o conceito de ZDP - Zona de Desenvolvimento Proximal: a criança só consegue realizar acções que estão próximas das que já realizou. Este processo dá-se a dois níveis: o de desenvolvimento real – capacidade de realizar a tarefa sozinha; e o de desenvolvimento potencial – desempenho de tarefas com a ajuda de outro, em que a interferência deste afecta significativamente o resultado da acção individual.
"Essa possibilidade de alteração de desempenho de uma pessoa pela interferência de outra é fundamental na teoria de Vygotsky. Em primeiro lugar porque representa, de fato, um momento do desenvolvimento: não é qualquer indivíduo que pode, a partir da ajuda do outro, realizar qualquer tarefa. Isto é, a capacidade de se beneficiar de uma colaboração de outra pessoa vai ocorrer num certo nível de desenvolvimento, não antes". (Oliveira, 1993:59).
A teoria de Vigotsky permite, ainda, conceptualizar a interacção no processo educativo, para melhor compreender os processos de mudança produzidos pelas interacções em situações escolares.
A tutoria em contexto escolar tem sido precisamente utilizada como uma forma de interacção em que a interferência do professor-tutor vai influenciar o resultado da acção individual do aluno.
Não descurando os aspectos legais e legislativos que determinam o funcionamento da tutoria na escola, há que colocar a tónica nos procedimentos e acções que, de facto, podem rentabilizar este espaço comunicacional, do nosso ponto de vista privilegiado, para desenvolver habilidades e competências sociais.
As actividades desenvolvidas deverão privilegiar, pensamos, o diálogo, a reflexão, o debate de ideias que contribuam para a formação integral do indivíduo como cidadão autónomo e responsável. E, tal como defende Vigotsky, parece-nos de realçar a unidade entre os processos intelectuais e afectivos. Para este autor “o pensamento tem sua origem na esfera da motivação, a qual inclui inclinações, necessidades, interesses, impulsos, afecto e emoção (…) cada ideia contém uma atitude afectiva transmutada com relação ao fragmento de realidade a que se refere. “ (Vigotsky, 1993)
É, pois, essencial, por parte do professor-tutor, sensibilidade e disponibilidade para os alunos, criatividade e persistência, estabelecimento de relações positivas e firmeza ‘temperada’ com afecto.
Fontes:
OLIVEIRA, M. K. O problema da afetividade em Vygotsky. In: DE LA TAILLE, Yves. Piaget, Vygotsky e Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo: Summus, 1992.
VYGOTSKY, L. S. Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1993.