quarta-feira, 13 de julho de 2011

Relações interpessoais


“Hope is a state of mind, not a state of the world”, Vaclav Havel.



“Hope in this deep and powerful sense is not the same as joy when things are going well or willingness to invest in enterprises that are obviously headed for early success, but rather an ability to work for something to succeed. Hope is definitely not the same thing as optimism. It’s not the conviction that something will turn out well, but the certainty that something makes sense, regardless of how it turns out. It is this hope, above all, that gives us strength to live and continually try new things, even in conditions that seem… hopeless.”

In The Human side of school change, Robert Evans (2001; p.298)


Mudam-se os tempos...


 “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.”
Camões

Todos falamos de mudança. Adaptação. Novos paradigmas. Criatividade. Inovação. (...)

E à escola é pedido que responda a todos estes desafios. Aos professores que se adaptem. Aos pais que venham à escola. Aos agentes sociais que estabeleçam parcerias. Aos alunos que se tornem seres de excelência!

Na verdade está, talvez, na hora de abrandar e… pensar! Ouvir! Partilhar! Conversar! Estabelecer laços! Construir confiança e aproveitar as qualidades dos novos tempos!

Perspectivar relações sociais é essencial. Mas de que serve, senão não tivermos a humildade de reconhecer o contributo dos outros no próprio crescimento como pessoas, aceitando e construindo 'diversidades' na diferença ?!

Estabelecer relações interpessoais é fundamental, pois somos seres eminentemente sociais. Destas dependem a convivência e a colaboração social; a aceitação e o compromisso de viver em sociedade e, quantas vezes, o amargo da rejeição levada, em extremo, até ao conflito, frequentemente sem sentido e obtuso, mas tantas vezes menosprezado por preconceitos de negativismo e evitamento confortável.

Há que dar lugar às emoções para dar sentido ao lado humano da mudança na escola. Há que estabelecer perspectivas dialógicas de interacção para construir consensos entre os indivíduos. Sempre haverá vencidos e vencedores e todos lutarão sempre por uma posição de influência e poder. O equilíbrio destas forças é, por isso, fundamental para tornar as organizações emocionalmente inteligentes.

Para tanto há que aceitar o erro e a incerteza como integrantes da complexidade do clima e cultura escolares. Não se trata de legitimar o erro, mas antes potenciar a lição que lhe está inerente. E isso só poderá ser feito se se fomentar uma cultura de ‘comunidade aprendente’.

Entendemos comunidades de aprendizagem  como organizações humanas que constroem o seu próprio projecto educativo e cultural para educar os seus jovens e adultos, num esforço cooperativo e endógeno, baseado num diagnóstico , não só de necessidades, como de forças para superar  carências.

Importa construir um projecto integral e integrador, a nível micro e macro das políticas educativas, colocando no centro a aprendizagem e a cultura sintonizada com o exercício de uma cidadania plena.

Construir uma comunidade de aprendizagem implica rever a escola como espaço de vinculação de relações, em que alunos e professores são, ao mesmo tempo, agentes escolares e comunitários. A família tem, também um valor de referência neste quadro como espaço sócio-afectivo de desenvolvimento dos jovens e da própria comunidade em que se insere, pelos laços que estabelece e desenvolve.

Por outro lado, a escola não é a única instituição educativa que interfere na formação dos jovens, sendo de ter em conta outras instituições comunitárias, decisivas na construção de experiências pessoais.

Assim, entendemos comunidade de aprendizagem como a construção de planos educativos territorializados, em que é necessário ir mais além do que a articulação de intervenções sociais concertadas.

A proposta de Comunidades de Aprendizagem visa, então, a transformação social e cultural da escola e do seu ambiente. Regida por princípios da aprendizagem dialógica visa a educação de máxima qualidade para todos.

Aplicar princípios de aprendizagem dialógica implica pensar relações mais igualitárias dentro do contexto escolar, vislumbrando a construção de uma estratégia de desenvolvimento e transformação educativa e cultural a nível local, com o cidadão como protagonista e agente de mudança.

 “E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.”

Camões

Vigotsky: a contínua interacção entre as condições sociais e os factores biológicos do comportamento

A teoria sócio-interaccionista, que teve em Vygotsky o seu maior expoente, defende a concepção do homem enquanto corpo e mente, enquanto ser biológico e social, enquanto participante de um processo histórico cultural. Defende, pois, a contínua interacção entre as condições sociais mutáveis e os factores biológicos do comportamento.

Esta nova abordagem privilegia o ambiente social e preconiza que o desenvolvimento varia consoante o ambiente, não aceitando, pois, uma visão única e universal do desenvolvimento humano.

A relação homem-mundo é mediada por símbolos e o desenvolvimento e a aprendizagem são processos que se influenciam reciprocamente.

A linguagem tem um papel fulcral no desenvolvimento cognitivo, pois com a aquisição da mesma se modificam os processos mentais. A linguagem é, pois, factor de inserção social.

O uso dos signos, enquanto instrumentos das actividades psicológicas, transformam as funções mentais elementares - acções reflexas; reacções automatizadas - em processos mentais superiores - acções conscientemente controladas; atenção voluntária; memorização activa; pensamento abstracto; comportamento intencional e capacidade para solução de problemas.

Os instrumentos de representação e a linguagem determinam a mediação entre o individuo e o mundo.

A cultura determina a forma como o indivíduo percebe e organiza o real. Vigotsky defende que o desenvolvimento cultural da criança é condicionado pelas construções sociais e culturais a que a mesma está sujeita e pela sua interiorização, que é concretizada a partir de interacções que se estabelecem com os adultos, numa clara assunção de que o individuo reconstrói e reelabora os significados transmitidos pelo seu grupo cultural.

É a partir deste pressupostos que o autor desenvolve o conceito de ZDP - Zona de Desenvolvimento Proximal: a criança só consegue realizar acções que estão próximas das que já realizou. Este processo dá-se a dois níveis: o de desenvolvimento real – capacidade de realizar a tarefa sozinha; e o de desenvolvimento potencial – desempenho de tarefas com a ajuda de outro, em que a interferência deste afecta significativamente o resultado da acção individual.

"Essa possibilidade de alteração de desempenho de uma pessoa pela interferência de outra é fundamental na teoria de Vygotsky. Em primeiro lugar porque representa, de fato, um momento do desenvolvimento: não é qualquer indivíduo que pode, a partir da ajuda do outro, realizar qualquer tarefa. Isto é, a capacidade de se beneficiar de uma colaboração de outra pessoa vai ocorrer num certo nível de desenvolvimento, não antes". (Oliveira, 1993:59).

A teoria de Vigotsky permite, ainda, conceptualizar a interacção no processo educativo, para melhor compreender os processos de mudança produzidos pelas interacções em situações escolares.

A tutoria em contexto escolar tem sido precisamente utilizada como uma forma de interacção em que a interferência do professor-tutor vai influenciar o resultado da acção individual do aluno.

Não descurando os aspectos legais e legislativos que determinam o funcionamento da tutoria na escola, há que colocar a tónica nos procedimentos e acções que, de facto, podem rentabilizar este espaço comunicacional, do nosso ponto de vista privilegiado, para desenvolver habilidades e competências sociais.

As actividades desenvolvidas deverão privilegiar, pensamos, o diálogo, a reflexão, o debate de ideias que contribuam para a formação  integral do indivíduo como cidadão autónomo e responsável. E, tal como defende Vigotsky, parece-nos de realçar a unidade entre os processos intelectuais e afectivos. Para este autor  “o pensamento tem sua origem na esfera da motivação, a qual inclui inclinações, necessidades, interesses, impulsos, afecto e emoção (…) cada ideia contém uma atitude afectiva transmutada com relação ao fragmento de realidade a que se refere. “ (Vigotsky, 1993)

É, pois, essencial, por parte do professor-tutor, sensibilidade e disponibilidade para os alunos, criatividade e persistência, estabelecimento de relações positivas e firmeza ‘temperada’ com afecto.



Fontes:

OLIVEIRA, M. K. O problema da afetividade em Vygotsky. In: DE LA TAILLE, Yves. Piaget, Vygotsky e Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo: Summus, 1992.

VYGOTSKY, L. S. Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

Comportamentos disruptivos


Podemos tipificar, na escola, diferentes atitudes comportamentais:

  • Conflito – situação de diferença e confronto de ideias e posições pessoais perante determinada realidade. O problema não reside no conflito em si, mas na gestão do mesmo;
  • Indisciplina – quando a violação das regras ao poder instituído (a autoridade do professor, por exemplo) se torna uma afronta para o grupo. É o caso de infracções ao regulamento interno, por exemplo;
  • Violência – que se manifesta em situações de força física, emocional ou verbal, deliberadamente exercida para coagir outros. É o caso, por exemplo, dos roubos nos balneários do pavilhão gimnodesportivo;
  • Bullying – manifestação contínua de comportamentos agressivos, que não se limita à agressividade física, com consequências graves no equilíbrio psicológico do jovem;

Na maioria das vezes entendemos estes comportamentos como consequência de ambiente familiar desestruturado, de insucesso na aprendizagem, fraca auto-estima e muito mais…

Algumas vezes desistimos perante a dificuldade da resolução e partimos para acção punitiva…

Falamos, também, muito de negociação, mediação e oportunidade para resolver situações que perturbam a ordem …

A questão que se coloca é se não deveríamos olhar para o clima organizacional e perceber até que ponto os processos de liderança, a motivação, as interacções, a comunicação, o controlo, a decisão, a definição e fixação de objectivos afectam e geram eles próprios comportamentos de conflitualidade. Importa, ainda, saber em que medida o clima organizacional propícia e incentiva os diferentes processos de mediação.

Só a partir desta perspectiva poderemos pensar o conflito na sua dimensão construtivista.


quarta-feira, 22 de junho de 2011

Somos seres eminentemente sociais...

As relações que estabelecemos com os outros e com o ambiente determinam e condicionam a nossa evolução enquanto espécie.

Desenvolvemo-nos a partir de um processo sócio-histórico, como defendeu Vygotsky. Sentimos necessidade de estabelecer contactos, manifestar opiniões e sentimentos. Este instinto gregário obriga a um auto-conhecimento e conhecimento do outro para que se estabeleçam laços de respeito e compreensão mútuos.

Indivíduo e sociedade são duas faces da mesma moeda pois que no campo simbólico os objectos adquirem valor de acordo não só com as experiências e vivências individuais, mas com o reflexo que a sociedade transmite desses mesmos objectos, em particular, do meio e ambiente que condiciona a forma como são percepcionados. A actividade humana é, por isso, produto de um desenvolvimento profundamente enraizado na história individual e colectiva.

A aprendizagem que está inerente à actividade humana alicerça-se nas relações interpessoais e intrapessoais. A inteligência exige acção-interacção com o conhecimento e este, por sua vez, possibilita oportunidades imensas de desenvolvimento pessoal e social.

O contexto educativo é um verdadeiro fenómeno social. Nele se manifestam não só emoções, pensamentos e comportamentos individuais, como também se assiste a uma interacção constante dos sujeitos que permite criar uma realidade em que se constroem conceitos e objectivos dos grupos sociais, num processo histórico e relacional que, ao mesmo tempo define e torna único cada ambiente escolar.

E se o meio externo permite ao indivíduo uma aprendizagem e desenvolvimento específicos, também o processo de internalização, segundo Vygotsky é fundamental para o equilíbrio psicológico humano. É neste que o ser humano estabelece relações entre o que o rodeia, numa actividade claramente interpessoal, e o que apreende para poder relacionar-se e organizar-se nessa relação, adoptando agora um comportamento claramente intrapessoal.

Na sala de aula vivenciam-se relações interpessoais e intrapessoais a diferentes níveis. E aí se observa que viver é, também, aprender a construir relações. O papel do professor é fulcral, pois interfere de modo muito peculiar e significativo na forma como essas relações se estabelecem. Por exemplo, quando faz cumprir regras, estabelece uma forma de mediação  social que, ao mesmo tempo, influencia, mas também permite o emergir de projectos pessoais e identitários de desenvolvimento.

quarta-feira, 9 de março de 2011

PORTEFÓLIO

"Os portefólios são instrumentos de diálogo (...),  continuamente (re)elaborados na acção e partilhados por forma a recolherem, em tempo útil, outros modos de ver e de interpretar que facilitem (...) uma ampliação e diversificação do olhar (do autor), forçando à tomada de decisões... São instrumentos de estimulação do pensamento reflexivo."
in Sá-Chaves, in (org.) (1997). Percursos de Formação e Desenvolvimento Profissional. Porto: Porto Editora

eu....

“Porque o único sentido oculto das coisas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as coisas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender." (Alberto Caeiro)