TEMA 2 - ABORDAGEM COMUNICACIONAL DAS RELAÇÕES INTERPESSOAIS


 ABORDAGEM COMUNICATIVA DAS RELAÇÕES INTERPESSOAIS:
  • INTERACCIONISMO SIMBÓLICO
  • ESCOLA DE PALO ALTO
 
Sinopse

COMUNICAÇÃO significa a troca de informações entre um transmissor e um receptor, e a inferência (percepção) do significado entre os indivíduos envolvidos. A comunicação interpessoal é essencialmente um processo interactivo e didáctico (de pessoa a pessoa), em que o emissor constrói significados e desenvolve expectativas na mente do receptor.

Uma mensagem pode ser:

VERBAL

o modo de comunicação mais familiar e mais frequentemente usado
VERBAL-ORAL
refere-se à emissão de palavras e sons que usamos para nos comunicar, tais como dar instruções, entrevistar ou informar
VERBAL-ESCRITA
registo de observações, como pensamentos, interrogações, informações e sentimentos.




SIMBÓLICA
As pessoas cercam-se de vários símbolos, que podem comunicar muito a outras pessoas. Por exemplo, as roupas que usamos, o carro que possuímos, e tantos outros objectos expressam parte da nossa personalidade.



NÃO-VERBAL
A comunicação não-verbal, que se refere à transmissão de uma mensagem por um meio que não a fala ou a escrita, é uma das facetas mais interessantes da comunicação. Incorpora aspectos como o modo  como usamos o nosso corpo, os nossos gestos e nossa voz para transmitir certas mensagens.


O modelo de Shannon-Weaver do processo de comunicação.    

                                           
Fonte: Adaptado de C. F. Shannon-Weaver, The Mathematical Theory of Communication (Urbana: University of Illinois Press, 1949), pp. 5 e 98.

Explicação do modelo Shannon-Weaver
·         Do lado do emissor há um processo de codificação; do lado do receptor, a decodificação. Entre a mensagem enviada e a recebida há um hiato, em que diversos ruídos podem afectar a mensagem
·         A comunicação não estará completa enquanto o receptor não tiver interpretado (percebido) a mensagem.
·         Se o ruído for demasiadamente forte em relação ao sinal, a mensagem não chegará ao seu destino, ou chegará distorcida.
·         Por ruído, entende-se tudo o que interfere na comunicação, prejudicando-a. Pode ser um som sem harmonia, um emissor ou receptor fora de sintonia, falta de empatia ou habilidade para colocar-se no lugar de terceiros, falta de atenção do receptor etc.
·         Os recursos usados para anular ruídos são:
o   redundância: todo o elemento da mensagem que não traz nenhuma informação nova. É um recurso utilizado para chamar à atenção e eliminar possíveis ruídos;
o   feedback: conjunto de sinais perceptíveis que permitem conhecer o resultado da mensagem.
·          FATORES A CONSIDERAR:
o   quem comunica a quem;
o   a linguagem ou o(s) símbolo(s) usados para a comunicação, e a respectiva capacidade de levar a informação a ser entendida;
o   o canal de comunicação;
o   o conteúdo da comunicação;  
o   as características interpessoais do transmissor e as relações interpessoais entre transmissor e o receptor;
o    o contexto no qual o comunicação ocorre;

 As relações interpessoais ocorrem sustentadas em actos de comunicação.

As escolas de Palo Alto e Interaccionismo Simbólico estudam a comunicação centrada na interacção, nas relações interpessoais, enquanto fenómenos de interacção social.



INTERACCIONISMO SIMBÓLICO
Todas as interacções são sustentadas numa carga simbólica. A interpretação desses símbolos permite a compreensão do mundo social, regulado por regras de convivência mútua e atitudes comportamentais.
A linguagem é o modo como os indivíduos expressam os seus símbolos,  percepcionados e manipulados pelo pensamento.
A interpretação do significado dos símbolos determina a acção.
Símbolos, linguagem e pensamento são os três princípios fundamentais do Interaccionismo Simbólico.


A ESCOLA DE PALO ALTO
A não comunicação é impossível, pois mesmo a ausência de comunicação tem um significado.
Todo o tipo de manifestação humana é sinónimo de interacção.
Existe sempre um aspecto de conteúdo e relação no acto comunicativo.
A natureza de uma relação assenta no quadro de referências que os interlocutores fazem uns dos outros.
A comunicação pode ser digital ou analógica.
As trocas comunicacionais podem ser simétricas ou complementares, conforme se baseiem na igualdade ou na diferença.




Bateson, Gregory, (1904-1980) – pensador sistémico e epistemológico da comunicação. Nos Estados Unidos, Califórnia, Bateson uniu-se ao grupo da chamada Escola de Palo Alton (conhecida como o Colégio Invisível) e ao Mental Research Institut (MRI).

Apresentação das tarefas propostas e respectivos objectivos


Tarefas

·       Leitura dos materiais propostos, orientada para uma breve caracterização do Interaccionismo Simbólico e da Escola de Palo Alto.
·      Identificar alguns princípios vinculados a cada uma destas escola que tenham particular relevância no estudo das R.I., devidamente justificados e ancorados em exemplos da prática profissional.
·      Elaborar um quadro com a apresentação esquemática da informação sobre as duas escolas e exemplos práticos
Objectivos
·      Estudar as escolas que, na área da comunicação, podem contribuir para o estudo das relações interpessoais: Interaccionismo Simbólico e Escola de Palo Alto.



Trabalhos realizados no âmbito do tema


1.

A ESCOLA DE PALO ALTO

A Escola de Palo Alto, fundada em 1942 no estado da Califórnia, Estados Unidos, tendo como percursor Gregory Bateson, surge como reacção à ideia de comunicação pela máquina (modelo de Shannon), procurando reflectir sobre a comunicação numa lógica interpessoal.

Baseia-se em 5 axiomas

§  Não se pode não comunicar (o próprio silêncio é um acto de comunicação);

§  Toda a comunicação tem um aspecto de conteúdo e um aspecto de relação – metacomunicação;

§  A natureza de uma relação está na contingência da pontuação das sequências comunicacionais entre comunicantes;

§  Os seres humanos comunicam digital e analogicamente;

§  As permutas comunicacionais são simétricas, se se baseiam na igualdade, complementares se se baseiam na diferença.

Juntamente com Bateson, Paul Watzlawick e Don Jackson foram os autores mais representativos da Escola de Palo Alto, defendendo uma visão interdisciplinar da comunicação.



2.

Interaccionismo Simbólico e Escola de Palo Alto

[Trabalho realizado para o Fórum de Discussão.]






3.

Comportamento gera Comportamento



De facto, as relações que estabelecemos no dia-a-dia são o reflexo do nosso comportamento – tudo o que fazemos ou dizemos.

Mas o comportamento é apenas a ‘ponta do iceberg’. É a parte visível de nós: o que os outros vêem, ouvem ou percebem.

Os motivos, os pensamentos, atitudes ou sentimentos não são visíveis. Apenas o comportamento que os traduz é perceptível ao outro.

Por isso, os sinais (símbolos de comunicação) que enviamos através do nosso comportamento são de extrema importância, diria ‘vitais’ mesmo na influência que exercem nas reacções do outro - o nosso comportamento afecta o modo como os outros se comportam em relação a nós.

Por exemplo, podemos pedir a alguém que altere o seu comportamento, mas teremos muita dificuldade em pedir-lhe que altere os seus pensamentos, as suas atitudes e os seus sentimentos. Em boa verdade, as relações comunicacionais assentam na interacção de comportamentos que se estabelecem na relação. Daí que:

·         Podemos escolher o comportamento como facilitador ou impeditivo da comunicação.

·         Podemos usar o comportamento para facilitar ou ajudar a comunicação.

Os sinais verbais (como por exemplo, saber o nome do aluno, do encarregado de educação), visuais (traduzidos numa escuta activa) podem, de facto, ajudar a estabelecer relações com os outros e ser decisivos no processo comunicativo que se estabelece.

Para tanto, é, ainda necessário, que estes símbolos (verbais e visuais) sejam ‘parte da mesma história’, ou seja, posso verbalizar determinada ideia sem que seja totalmente convincente, porque a atitude visível vai em direcção oposta ou vice-versa.

Esta capacidade comunicativa de que falamos compromete os efeitos do acto comunicativo em si: comportamento gera comportamento e este pode ser usado como facilitador ou impedimento da comunicação.

Fontes (básicas e complementares)

Alarcão. M. (2000). (Des) Equilíbrios Familiares. Coimbra: Quarteto Editores.


Costa, E.; Matos, P. (2007). Abordagem sistémica do conflito. Lisboa: Universidade Aberta.


Griffin, E. (2006). A First Look at Communication Theory. McGraw-Hill (6ª ed.) http://www.afirstlook.com/main.cfm


http://www.fpce.uc.pt/pessoais/aprelvas/ms0607/Glossario.pdf, recuperado em 6 de Junho de 2011

Reflexão sobre a pertinência científica e pedagógica do tema


A pragmática da comunicação humana


A Escola de Palo Alto tem como estudo a pragmática da comunicação humana, evidenciando a lógica integral da comunicação. Faz uma abordagem dedutiva (recorrendo ao uso de conceitos e modelos sistémicos) e indutiva (na fundamentação empírica desses modelos e análise da comunicação real) do acto de comunicar.

Partindo do pressuposto que a essência da comunicação reside nos processos relacionais e interrelacionais, importando mais as relações entre indivíduos que estes tomados isoladamente, a Escola de Palo Alto faz a abordagem sistémica da comunicação, na explicação do funcionamento dos sistemas sociais e humanos em que se valorizam as especificidades das relações humanas e se aponta a interacção como um sistema, recorrendo ao uso do Modelo Circular de Comunicação.
Aponta como premissas da comunicação humana:

·         o valor comunicacional do comportamento – todo o comportamento é comunicação;

·         o contexto - “(…) toda a comunicação necessita de um contexto, pois sem contexto não há significado (…) “ (Bateson). [Teoria Ecossitémica da Comunicação: o organismo vivo e o meio coevoluem, são indissociáveis na sua relação constante. O ecossistema é o meio complexo, vasto e dinâmico no qual os sistemas se inserem, do qual fazem parte e com o qual interagem reciprocamente, estabelecendo relações, numa lógica circular e multideterminada];

·         a relação – a comunicação tem um aspecto relacional. Há que ter mesmo em conta que a consciência que o sujeito tem de si mesmo depende das suas relações com os outros. Bateson deu a metáfora do jogo de xadrez: em qualquer ponto determinado, a situação de jogo só pode ser entendida pela configuração presente das peças no tabuleiro;

·         a redundância - certos comportamentos, atitudes... tornam-se repetitivos e, portanto, mais prováveis do que outros. Bateson recorre, de novo, à metáfora do jogo de xadrez, alertando que a comunicação humana é constituída por sinais verbais, corporais e comportamentais. Ao observar-se  do exterior um interacção entre duas ou mais pessoas, poderá notar-se que certas sequências se repetem e que os mesmo comportamentos se implicam mutuamente;

·         a metacomunicação - qualquer comportamento ou acto de comunicar sobre a comunicação. A metacomunicação tem como finalidade especificar e pontuar o contexto de interacção. Este contexto determina como devem ser interpretados os comportamentos relacionais. “A metacomunicação constitui uma condição sine qua non da comunicação bem sucedida ou da comunicação funcional” (Alarcão, 2000).


A escola, sendo um local de grande riqueza humana, assume particular relevância nas formas de comunicação e nas relações interpessoais que se estabelecem. Mesmo em contextos onde existem códigos comunicacionais comuns, como por exemplo a sala de aula, é necessário ter em mente que existem outros contextos exteriores, inerentes às vivências sociais e culturais dos interlocutores (a que Bateson chama trocas circulares) e que interferem e podem distorcer o objectivo da comunicação.

Não podemos esquecer que comunicar não é só falar por palavras. Os gestos, as expressões faciais, o olhar, o sorriso, tudo comunica. Mesmo sem querermos, mesmo sem falarmos, nós estamos a comunicar.

Também relevante em contexto educativo a dimensão interpessoal da comunicação nos processos de interacção social recíproca, entre duas ou mais pessoas, pois que esta relação poderá ter influência no comportamento, na motivação e no estado emocional do emissor ou do receptor.

Relevante será reter que a comunicação começa em nós próprios, mas é na mente da outra pessoa que ela é efectuada. O que importa não é apenas o que é dito, mas o que a outra pessoa entende do que foi dito.

Fontes:

Alarcão. M. (2000). (Des) Equilíbrios Familiares. Coimbra: Quarteto Editores.